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ARTIGOS » O HOMEM DO FUNDO DO MAR

 

Por Alfonso Moscato

  

"Um Herói que Veio do Mar"

Depois do sucesso de Aventura Submarina e Viagem ao Fundo do Mar, nos anos 60, a TV americana passou a ter interesse em outras séries que tratassem de aventuras ambientadas no mar. O grande problema era que, nos anos 60/70, os custos para produzir séries nesse gênero eram muito altos. Era difícil produzir uma série sobre aventuras no mar, sem ter um bom aparato em efeitos especiais que, naquela época, ainda eram muito modestos. O sucesso de Aventura Submarina se deu por ser uma série que não precisava de efeitos especiais mirabolantes e Viagem ao Fundo do Mar sempre teve problemas de produção ao longo dos cinco anos que ficou no ar. Mas o interesse do público era visível e as emissoras de TV sabiam que as séries que tratavam de viagens espaciais, como Star Trek, já tinham um público formado e garantido. Faltava conquistar a audiência que não se sentia atraída por "Sci-Fi"  espacial e os fãs de aventuras submarinas só tinham Viagem ao Fundo do Mar e Aventura Submarina como referências.

Devido a todas essas complicações, a TV americana só foi produzir outra série marinha no final dos anos 70. O Homem do Fundo do Mar (no original, The Man From Atlantis) estreou na telinha em 1977 com muitas expectativas. Mas sua trajetória seria muito curta, durando apenas uma temporada.

Na verdade, O Homem do Fundo do Mar surgiu de um projeto fracassado da rede NBC de adaptar para a TV, as aventuras do Príncipe Namor, famoso personagem da Marvel Comics. A idéia Mark Harris e a Dra. Elizabeth Merrill não vingou porque o pessoal da NBC não queria encarar uma briga com Gene Roddenberry que, anos antes, durante a produção de Star Trek, se desentendeu com a Marvel, que dizia que o Sr. Spock tinha muita semelhança física com Namor. Querendo evitar outra confusão a NBC, optou por elaborar outro projeto e aí surge O Homem do Fundo do Mar.

Curiosamente, um dos responsáveis pela idealização da série, o escritor Herbert F. Solow, colaborou com Star Trek. Solow e Mayo Simon criaram para O Homem do Fundo do Mar um universo ficcional mais próximo da nossa realidade. A NBC ficou satisfeita com o conceito geral da série e foi produzido um piloto que estreou com uma audiência razoável. Estranhamente, a emissora decidiu produzir mais três filmes-piloto, uma prática pouco comum na TV americana, pois geralmente só é produzido um único piloto de 90 minutos. 

 A série começa quando um homem é encontrado inconsciente na praia. Levado para um hospital, descobrem que não se trata de uma simples vítima de afogamento. A doutora e bióloga marinha Elizabeth Merril é chamada para investigar o caso e descobre que o homem, na verdade, é uma espécie de anfíbio humano. Impressionada com a descoberta e disposta a ajudar seu novo amigo, a doutora Merril decide levá-lo para a Fundação Científica para qual trabalha. Lá ela descobre que o homem, já consciente, não se lembra quem realmente é, assim ganhando da doutora Merril, o nome Mark Harris. 

As habilidades marinhas de Mark chamam a atenção de todos na Fundação. Merril acha que Mark é provavelmente um dos últimos sobreviventes da lendária Atlântida. A partir daí, ele passa a viver suasO submarino Cetáceo aventuras junto com a doutora Merril e o pessoal da Fundação, sempre investigando os mistérios e os perigos relacionados aos oceanos. 

Apesar desse "plot" simples, a série ganhou mais algumas características na tentativa de enriquece-la. Assim surgiu o Cetáceo, um submarino de pesquisas que Harris e seu pessoal utilizam em suas missões. Os roteiristas da série decidiram que Harris deveria ter um inimigo em potencial. Assim surge, já no primeiro episódio piloto, o Sr. Schubert, um cientista que deseja dominar os oceanos da Terra.

 Com todos esses ingredientes, O Homem do Fundo do Mar não conseguiu se tornar um grande sucesso. O grande problema da série eram os roteiros, que não conseguiam explorar com mais afinco os elementos mais "Sci-Fi" que deveriam ser a tônica do seriado. Outro ponto fraco da série era o ator Patrick Duffy, que interpretava Mark Harris. Ficava muito evidente que ele não tinha grandes recursos dramáticos o que impossibilitava explorar mais as dificuldades de Harris em viver em um ambiente que não é o seu. As limitações de Duffy ficavam mais evidentes quando Harris enfrentava o vilão Sr. Schubert, interpretado por Victor Buono. Apesar de Schubert não ser propriamente um vilão espetacular, graças ao talento de Buono, se tornou o personagem mais marcante da série, diante da falta de carisma dos outros personagens.

Depois de ter sido cancelada, a série conseguiu fazer um sucesso inesperado no exterior. O Homem do Fundo do Mar foi o primeiro programa ocidental a fazer sucesso na China (não... não foi A Escrava Isaura, como a Globo tenta nos fazer crer). No Brasil chegou até mesmo a gerar uma revista em quadrinhos e um álbum de figurinhas. A série era exibida aqui pela Rede Globo nas suas tardes de domingo, com boa audiência. Depois chegou a integrar a programação da extinta TV Manchete nos anos 80 e nunca mais foi exibida.

Mesmo sendo um seriado pouco brilhante, O Homem do Fundo do Mar chegou a ter seus fãs. Algumas de suas idéias eram interessantes mas faltaram as condições ideais para fazer essas idéias funcionarem de uma maneira mais proveitosa. Mesmo com todas as suas limitações, o seriado ajudou a despertar no público um novo interesse por histórias de ficção científica que envolvessem o universo marinho. Foi esse interesse que fez Steven Spielberg, anos mais tarde, produzir sua própria série de TV sobre aventuras marinhas, a bem sucedida Seaquest.
 


Alfonso Moscato é colaborador do RetrôTV.