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RIO DE JANEIRO - No último domingo, minha filha que mora em Roma fez anos. Usando os recursos da internet, minha outra filha e eu a despertamos ao som de Carequinha cantando a musiquinha da infância das duas: "Parabéns! Parabéns!". Foi uma choradeira só. Veio tudo de volta, toda a infância delas, o tempo mais gostoso de minha mocidade, tempo em que um palhaço ainda nos comovia -ao contrário de certos palhaços de hoje, que nos fazem chorar.
A voz dele, propositadamente rachada, que não o impediu de emplacar um sucesso na marchinha de Miguel Gustavo, "Ela é Fã da Emilinha", campeã de um Carnaval dos anos mais antigos do passado. Carequinha foi logomarca e trilha musical do início esforçado de nossa televisão. Pulara do circo, habitat natural de um palhaço, para o grande circo eletrônico ainda em preto-e-branco, uma televisão ingênua como ele e na qual fazia a ligação do passado com o presente, trazendo sua máscara, seus tombos, sua boca enorme e vermelha escondendo a nostalgia disfarçada dos palhaços -"e enquanto o lábio trêmulo gargalha, dentro do peito o coração soluça", segundo o soneto famoso.
Certa vez, despojado de suas vestes litúrgicas de picadeiro, ele cantou ao violão uma música de sua autoria. Era a herança dos palhaços que ele cantava, o apelo da multidão que pede riso e alegria, e a alma ferida lá dentro, olhando a platéia que o exige e aplaude, sem ver que seus olhos estão molhados. Nada mais triste do que o olhar de um palhaço mal protegido pelo alvaiade cor de luar. Crianças daquela época, crianças de três gerações, acompanhavam aquelas cambalhotas segurando o chapéu, terminando-as com o chapéu na cabeça. O palhaço-herói, o palhaço-ícone de um mundo que poderia ser, roque roque do ratinho, o bom menino não faz xixi na cama -um mundo que se vai com ele. Ano que vem, minhas filhas e eu novamente tocaremos o seu parabéns com mais emoção e saudade.
CARLOS HEITOR CONY Texto:
Folha de São Paulo |
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