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Título:
Kung-Fu (Kung-Fu/1972/EUA/Cor)
No turbilhão cultural do princípio dos "Seventies", uma série de TV surgira a tempo de ser "digerida" pelos anseios emergentes. No início da abertura desse seriado, se via um homem magro e alto caminhar - ao nascer de um novo dia - cabisbaixo sobre dunas, deixando seus passos impressos na areia ao mesmo tempo em que se ouvia uma triste e típica música chinesa. Um homem perseguido pelo passado e temeroso do futuro, preso numa terra inóspita na qual era desconsiderado como ser humano e na qual palavras como "honra" e "sabedoria" pouco significavam. Era a série "Kung Fu", tomada pelos profissionais do meio como o primeiro "Eastern Western" ("Velho Oeste Oriental") da história da TV.
Kung Fu é, numa análise superficial, o conto do órfão que virou mestre das artes marciais; e, numa visão minimalista, é a história do homem que virou mestre de si próprio, senhor de sua consciência. Kwai Chang Caine é um mestiço nascido na China, filho de pai americano e de mãe chinesa. O menino, por não ter aonde ir ou onde se estabelecer, acabou por bater aos portões do Templo Shaolin. Embora mestiço, foi aceito pelo grande mentor daquele templo, Mestre Kan (interpretado pelo falecido Philip Ahn), o qual ignorou a premissa Shaolin - de que apenas chineses legítimos são admitidos - por ter sentido algo "especial" pelo pobre garoto solitário.
Caine, de fato, lá permaneceu por anos, até ter se tornado um adulto. Durante o tempo decorrido no templo, aprendeu todos os segredos e técnicas do kung fu, como por exemplo, os estilos "animais" representantes das respectivas disciplinas: autocontrole, suavidade, velocidade, paciência, graça, dentre outras. Aprendeu a cuidadosamente caminhar sobre folhas feitas de arroz, dotado de tamanha suavidade capaz de não amassa-las e de não produzir ruídos. A lição essencial dentre todas, entretanto, foi a de controlar a "força interior"; algo batizado pelos chineses de Chi. Caine cresceu ao lado de outro grande professor, Mestre Pô (interpretado pelo falecido Keye Luke), de quem se admirou muito e por quem nutriu amor e carinho. Esse mestre, aliás, foi o responsável pelo apelido dado ao menino: Gafanhoto. Mestre Pô era cego. O fato aguçou a curiosidade do infante, que, por ter sentido pena de seu tutor (na constatação da cegueira) disparou um dos diálogos mais bonitos da série:
A partir desse momento, Caine passou a ser chamado por "Gafanhoto". O momento chegou, finalmente, e Caine foi capaz de arrebatar a pedra da mão de Mestre
Kan. Antes de partir, contudo, devia receber a "graça" por ter atingido o status de Mestre
Shaolin. A isso visando, Caine A cerimônia foi favoravelmente realizada. Ao executar o procedimento acima descrito, Caine recebeu em seus braços, involuntariamente, as marcas do dragão e do tigre; "impressas" pelo calor do caldeirão à pele do Shaolin. Caine deixara de ser o aprendiz que fora durante anos. A partir daquele momento já era mestre.
Alguns anos após a saída do templo, Caine encontrou-se, por acaso, com seu antigo mestre Pô num lugar próximo ao "Templo do Paraíso", na Cidade Proibida. Na época em que Caine aprendia, Mestre Pô confessou a ele a ambição de comparecer num determinado festival a ser realizado naquela cidade. A confissão se deu em caráter privativo, mesmo porque um mestre não poderia ter ambições daquele tipo; era algo proibido aos Shaolins. Pô, nesse encontro casual, confirmou a ida ao tal festival. Tencionando rever novamente seu querido mestre, Caine foi ao local da festividade. De fato, se encontraram e muito conversaram durante um passeio. No mesmo encontro, porém, se depararam com a "comitiva" na qual se integrava o arrogante sobrinho do Imperador da China. Após provocações oriundas desse e uma séria altercação, o membro da família real sacou de uma pistola e disparou em Mestre Pô, o deixando à beira da morte. Caine, instintivamente, jogou uma lança no jovem imperador, matando-o instantaneamente. O Shaolin, desesperado com a morte iminente de seu grande mentor (e, por que não, pai?), o pegou no colo e a ele suplicou perdão pelo assassinato cometido. Caine fora contra todos os ensinamentos prestados a ele, a partir do momento em que matou o sobrinho do Imperador. Mestre Pô, prestes a falecer, deu perdão ao favorito aprendiz e amigo, mas a ele também deu um aviso: precisaria deixar a China, pois o matariam - certamente - devido ao assassinato recém-cometido. A cabeça do Shaolin estaria "a prêmio". Ele faleceu, entretanto, antes entregou a Caine uma "mochila" que continha os únicos pertences dos quais dispôs em vida. Cheio de ódio no coração, envergonhado e aterrorizado, o jovem Shaolin decidiu-se a seguir o último conselho do mestre. Partiu para o país de origem do falecido pai: os Estados Unidos. Lá chegou no comumente conhecido "Velho Oeste". Ele se esconderia na imensidão daquele país, no qual dificilmente seria encontrado ou reconhecido.
As bases da série estavam prontas. Caine, o "estranho no ninho", seria "mais um chinês" na América. Precisaria lidar com o fato de, eventualmente, ser caçado por causa da acusação de assassinato na China, uma vez que sua cabeça estava "a prêmio": 10 mil dólares seriam pagos pela captura do Shaolin, se vivo. Tanto caçadores de recompensas chineses quanto americanos o perseguiriam; afinal, o prêmio era alto. Precisaria, também, se deparar com o racismo desmedido dos americanos (devido às diferenças sócio-culturais e à ignorância), pois lá os chineses eram explorados como mão-de-obra "quase" escrava. Nos primeiros episódios da série, os criadores de Kung Fu adicionaram um fator novo à história: Caine - supostamente - teria um meio-irmão mais jovem, Danny, que também estaria nos Estados Unidos. Além do plot básico citado, o Shaolin desejava encontrar-se com esse irmão, mesmo não tendo quase informações acerca dele. Danny, por conseguinte, seria o único parente dele, vivo e "de sangue"; Caine não tinha mais ninguém na vida.
Em cada episódio, Caine, além de procurar se esquecer do assassinato ocorrido na China e de buscar a seu irmão perdido, sempre acabava se envolvendo com os problemas de terceiros. Ao se deparar com as injustiças do Velho Oeste (foram inúmeras, creiam-me!), tentava auxiliar as pessoas na resolução dos problemas e em seus infortúnios, e, para tanto, punha em prática seus conhecimentos de Mestre Shaolin; quer seja através da sabedoria ou do combate físico. Um dos fatores mais belos da série é: Caine fazia "de tudo" para postergar qualquer tipo de violência. Só colocava "em prática" o kung fu em último caso, em última instância. Os flashbacks são outra parte importante da série. Eles serviam para ilustrar as situações enfrentadas por Caine no dia-a-dia de sua vida nos Estados Unidos. Nos flashbacks são mostradas ao público as cenas de Caine no Templo
Shaolin, ainda aprendiz, junto aos seus mestres. A lembrança de um ensinamento é diretamente proporcional à situação enfrentada por ele "na vida real", em determinado episódio. Na minha sincera opinião, os flashbacks são uma das coisas mais bonitas de Kung
Fu, pois através deles os criadores da série pretenderam atingir os corações e as mentes dos telespectadores com a beleza da Sabedoria Oriental. São os momentos mágicos da real "ação" de Caine sobre as pessoas localizadas do "outro lado da tela".
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