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Título:
Miami Vice
(Miami Vice/1984/89/Cor/EUA)
Em Miami Vice, é freneticamente ritmada a perversa atmosfera herdeira de Scarface (1983) e progenitora do bem-sucedido game Grand Theft Auto (GTA): Vice City (2002, com o próprio Philip Michael Thomas emprestando sua voz ao personagem Lance Vance). A tensão que emana das ruas e das suas figuras torna o ar irrespirável. A diferença entre criminosos e policiais é tênue, todos blefam compulsivamente sob cores pastéis, náuticos prédios art déco e envolventes luzes exageradamente coloridas da vida noturna. Ninguém é mais forte que esse jogo e poucos escapam desse vício, o verdadeiro protagonista do seriado, como seu nome já sugere. Alguns dos diálogos mais importantes não são falados: estão no rock instrumental de Jan Hammer e Tim Truman, bem como nas letras das músicas que dialogam com a narrativa, de Hoagy Carmichael a U2, de Bob Marley a Peter Gabriel. Nessa
cidade deliciosamente perdida, os "MTV Cops" Crockett e Tubbs são
intérpretes de uma farsa. Apesar de mal terem dinheiro para uma conta no
banco, a fauna local os conhece como Burnett e Cooper, dois “negociantes”
de lucros duvidosos, desfrutando de barcos à vela e de corrida, indo a
festas em carros Ferrari, em trajes como Versaci, Cerruti, Uomo, Hugo Boss e
usando relógios Ebel ou Rolex. Claro, nada verdadeiramente deles. Para
reforçar a vida dupla, o escritório Gold Cost Shipping Co. é a
fachada do departamento de polícia em que trabalham, e nem na lista
telefônica seus verdadeiros sobrenomes aparecem. Quando
a série entra no ar, Crockett já está nesse mundo há dez anos, tendo
passado antes pelo Vietnã. Sua vida pessoal não vai muito bem, ele vive um
processo civilizado mas confuso de divórcio. Sonny e Caroline tentaram, mas
a vida turbulenta do marido é para ela uma tortura, e para o filho do
casal, Billy, não exatamente uma boa influência. Após rompimentos e
reconciliações, no quarto episódio, "Calderone's Return", o divórcio é
finalmente decidido. Sem volta. Crockett
é uma espécie de personagem arquetípico de Michael Mann ("O Informante",
"Fogo Contra Fogo"), produtor executivo e homem-chave de Miami
Vice. Em muitos
de seus filmes, há personagens intensos cuja obsessão e envolvimento com o
trabalho, com o qual mantêm uma relação doentia de jogador-jogo, sufoca
suas Tubbs,
policial das ruas de Nova Iorque, vai a Miami para vingar a morte de seu irmão,
procurando coincidentemente pelo mesmo traficante colombiano que Crockett
investiga, Calderone. Junto a uma personalidade na maior parte do tempo
tranqüila e desembaraçada, existe uma determinação irracionalmente
inflexível que instantaneamente faz de qualquer um no caminho um estranho.
E Tubbs sempre será assim, de bem com a vida até que resolva não deixar
barato. Trocando mais socos e provocações entre si que bom dia, o entrosamento inicial dos dois não poderia ser pior. Entretanto, num trabalho com risco de vida real e tensão insuportável, antes do fim da primeira missão eles já seriam quase amigos. Tubbs não poderia voltar a Nova Iorque pois estava mais que "sujo" por lá. Ficar em Miami seria uma saída natural e logo ele arrumaria um Cadillac Deville conversível azul metálico 1963, estabelecendo-se na bela cidade durante as cinco temporadas do seriado, de 1984 a 1989. Foi
decisiva tanto para a escolha de Don Johnson quanto de Philip Michael Thomas
sua atuação em conjunto. A importância deles para a série só ficaria
evidente nas seleções finais dos atores, quando acabariam tendo, talvez
por sorte, que contracenar juntos. No
sexto episódio, "One Eyed Jack", surgiria o último personagem regular de
Miami Vice, o tenente Martin Castillo (Edward James Olmos), substituto de
Lou Rodriguez (Gregory Sierra), morto dois episódios antes. Edward James
Olmos ("Blade Runner", "Stand and Deliver") havia sido insistentemente convidado
para entrar no elenco por Michael Mann, mas somente após a excepcional
concessão de direitos de participação criativa no personagem e de liberdade de envolvimento com outros
projetos, ele aceitou o papel.
Mann havia mais uma vez acertado: quem conhece Miami Vice sabe que Castillo
é tão importante quanto a dupla principal, justamente pelo pálido
contraponto que representa em relação a ela. O personagem nunca é
revelado por completo e muito lentamente se torna claro o quanto suas
capacidades de investigação, supervisão e eventual ação são inesgotáveis.
Ex-agente da CIA que viveu infiltrado por anos na Ásia, com passado
oficialmente inexistente nos registros confidenciais, ele é uma espécie de
oposto do típico tira dos enlatados ou da tradição "Dirty Harry". Em
apenas um momento nos 111 episódios de Miami Vice, vê-se Castillo perder o
controle ("Golden Triangle - part II"); sua disciplina é plena e nele está
ausente qualquer tipo de exaltação ou abuso de força, não importando a
situação. Sua voz é débil e contida e sua mente parece não ter deixado
o pensamento, os costumes e as habilidades orientais. Quando tem que sair em
campo aberto, faz qualquer outro parecer um iniciante, mesmo a dupla
principal. Sua roupa é praticamente um uniforme: quase nunca é visto
usando outra coisa que não um simples terno escuro, camisa branca e uma
gravata fina. Especificamente em alguns episódios da série ele teve
enfoque aprofundado. Um deles, "Bushido" (com participação de Dean Stockwell,
episódio 30), foi dirigido pelo próprio Olmos.
Switek
e Zito são dois policiais um tanto imaturos que comumente passam por situações
cômicas, aprimorando-se ao longo do seriado. Freqüentemente monitoram
suspeitos e suas rotinas diárias através de telefones grampeados e outros
aparatos, num furgão GMC. Seu enfoque cômico diminuiu na segunda
temporada, e desapareceu na terceira. Nesta última, em "Down for the
Count" (episódio 56), Zito é assassinado. Claro,
não se pode esquecer Elvis o jacaré (e não crocodilo, como Crockett
sempre fez questão de enfatizar), ex-mascote da Universidade da Flórida
que divide o barco a vela St. Vitus' Dance (um Endeavor 42) com seu
dono. Por
se tratar de um departamento quase que inteiramente undercover e
marcado por procedimentos pouco ortodoxos, freqüentes atritos com ramos
maiores e mais poderosos da segurança dos EUA, isto é, CIA e FBI, eram
experimentados pelos seus membros. São incontáveis os episódios em que os
federais aparecem para atrapalhar tudo, ou por ineficiência ou por
interesses prioritários do país. Alguns destes poderiam ser "vista-grossa"
ao tráfico de armas para financiamento de guerrilhas estrangeiras (como no
episódio "No Exit") e manutenção de atividades ilícitas em outros
territórios ("Golden Triangle"). Tirando poucos diálogos forçosos, na maior
parte do tempo a série não teve piedade ao tocar em pontos controvertidos
das políticas externa e interna norte-americanas, chegando a ter a
participação de um dos envolvidos no escândalo Watergate em dois
episódios ("Back in the World" e "Stone's War"), o ex-agente do FBI G. Gordon
Liddy. Um clássico já na época Uma
característica notável do seriado era a freqüente participação de
celebridades, intensificada a partir da segunda temporada. Nomes como Phil
Collins, Bruce Willis, Miles Davis, Willie Nelson, James Brown, Lee Iacocca,
Bianca Jagger, Little Richard, Roberto Duran, Frank Zappa, Don King, Danny
Sullivan, Pam Grier e tantos outros, freqüentemente aparecem nos
episódios, atuando como traficantes, prostitutas e policiais corruptos.
Muitos atores hoje conhecidos também tiveram papéis, entre eles Julia
Roberts, Benicio Del Toro, Ving Rhames, Wesley Esses
dois episódios e "Calderone's Return - part II" foram dirigidos por Paul
Michael Glaser, de Starsky & Hutch. Seu colega David Soul também foi
diretor em Miami Vice, no episódio "No Exit". O próprio Don Johnson dirigiu
quatro episódios e nos cinco anos de Miami Vice, adquiriu experiência suficiente
para assumir Nash Bridges entre 1996 e 2001, série que teve 122 episódios
e seis temporadas. Nela, Johnson não só foi o ator principal
como também o produtor executivo. "Bridges" é basicamente Crockett após uma
década, em outra cidade e em outro departamento, num jogo de personalidades
explorado tão astutamente que em dois capítulos, Philip Michael Thomas faz
uma participação como antigo amigo de Nash. O nome de um deles, claro, só
poderia ser "Out of Miami". O personagem de Thomas, que também aparece em
"Wild Card", é Cedrick Hawks, apelidado de Rick (lembrando Rico, como Tubbs
era chamado). Alguns episódios de Nash Bridges até mesmo reaproveitaram
títulos como "Payback" e "Rock and Hard Place". A manobra, relativamente
bem-sucedida, era evidente: garantir a simpatia dos fãs de Miami Vice. Estratégias
à parte, o fato é que cada vez mais se tornou difícil diferenciar Don
Johnson de Sonny Crockett. Quem assistia às lutas de Tyson na década de 80,
freqüentemente via Johnson na platéia, às vezes trocando algumas palavras
com Jack Nicholson, outras vezes com Stallone. Entretanto, Sonny Crockett é
quem parecia estar lá: o notório processo do ator ser tomado pelo
personagem e não conseguir (e talvez nem querer) se libertar. Crockett
mostrou que sabia jogar snooker em
"The Great McCarthy", e não foi necessário contratar ninguém, pois Johnson
sabia muito bem como fazê-lo. Ele (ou melhor, Burnett) freqüentemente
pilotava barcos de corrida em alta velocidade. Emerson Fittipaldi, numa
entrevista dada à TV brasileira, contou que, sendo amigo de Don Johnson,
havia sido convidado por ele para ser seu parceiro numa corrida de lanchas.
Emerson recusou o convite por achar um esporte arriscado (!) e pouco após
veio a saber que Johnson e seus co-pilotos haviam sido os vencedores... Na
própria abertura da série, sempre após um prólogo, a linguagem do
videoclipe já se fazia notar, com os raios de sol passando pelas palmeiras,
os flamingos, o mar e o famoso logotipo sendo coordenado pelo "The
Original Miami Vice Theme", de Jan Hammer.
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