Celacanto provoca maremoto

Por Hélio Felippe de Souza Pinto

"Há muitos anos, surgiu nas paredes das casas do Rio de Janeiro a seguinte inscrição: "Celacanto provoca maremoto". A frase causou intriga. Era sempre a mesma elocução enigmática, e estava espalhada por diversos bairros da cidade. Chamou a atenção da imprensa e logo virou notícia de jornais e revistas. Por mais ambíguo que tenha sido o papel da mídia, ajudou a popularizar o que vulgarmente chamamos de pichação. E que eu prefiro entender como 'maneira patética de produzir o inútil'. Os pichadores carecem de símbolos e procuram através do grafismo a referência simbólica perdida na sua infância. À falta de internalização desses símbolos, se confundem na caligrafia, pois nela estão embutidas as mensagens inconscientes, um pedido de socorro, querer ser visto, ser pego, ter atenção. Em cada rabisco mal-formado do grafiteiro vaga o anárquico, o inseguro, o medroso. A frase "Celacanto provoca maremoto" era de um seriado de TV em que havia muita violência. Seu autor dizia através dos grifos o que desejava inconscientemente: 'Olhem para mim, preciso de carinho e atenção, não de violência...'. À medida que a mídia divulgava as paredes pichadas, a necessidade de pichar daquele jovem anônimo diminuía, até sumir para sempre da cidade aquela frase marcante. Já tivemos grafiteiros poetas, aqueles que escreviam no meio da rua, nos tapumes das construções, nas obras do metrô. Escreviam tudo aquilo em que acreditavam, expressavam todas as suas angústias, solidão, sofrimentos, crenças e valores.

Os grifos atuais na maioria das vezes são iniciais de nomes ou apelidos (nomes de guerra), pelos quais são chamados e reconhecidos pelo seu grupo, servindo também como desafio ou demarcação de território. Mas o que move um adolescente de classe média subir na cúpula de uma catedral para pichar, além do desafio? Significa que ele não vai nada bem. Seus pais geralmente nem sabem onde esse jovem anda, com quem anda, o que faz. Quando sabem, desconhecem qual a melhor atitude a ser tomada, enquanto outros preferem 'não ver', encobrindo e protegendo. O que fazer? Como reduzir esse abismo que separa pais e filhos? Acredito no estreitamento das relações entre pais e educadores, pais e autoridades, para que se possa identificar as verdadeiras necessidades desses jovens em busca de compreensão. Essa busca fica mais difícil e complicada quando o mundo os apedreja.

Hélio Felippe de Souza Pinto, é psicólogo no Rio de Janeiro.


A Pescaria que Abalou o Mundo

Pesquisadora lembra o dia em que sua vida virou de pernas para o ar por causa de um celacanto, peixe que a ciência acreditava estar extinto há 70 milhões de anos

O Peixe CelacantoQuando leu a manchete de jornal —“Celacanto provoca maremoto” —, o professor Massao Ata (o super-herói da TV National Kid) ajudou a popularizar em todo o planeta o nome desse misterioso peixe, que é uma das maiores descobertas científicas deste século que está prestes a findar. Sobrevivente da pré-história, os celacantos só haviam sido vistos até então em forma de fóssil. Por isso, os cientistas julgavam que  eles eram animais extintos há pelos menos 70 milhões de anos. A captura de um único exemplar vivo acontecera em 1938. Mas foi como tema do seriado de TV que o nome tornou-se popular nos anos 60, tanto que a manchete do episódio acabou por se transformar em pichação estudantil nos muros da cidade do Rio de Janeiro durante a onda de protestos que ocorreu no final daquela década. Mas o que pouca gente sabe é que a descoberta de um celacanto vivo nada teve a ver com demoradas e custosas buscas científicas. Foi uma legítima história de pescaria, fruto quase do acaso. E, na verdade, faltou muito pouco para o revolucionário achado não acabar direto na lata do lixo.

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